Após um penhasco ter desabado no Grand Canyon, especialistas fizeram uma impressionante descoberta nessas antigas rochas

Em uma trilha que percorre os rochedos vermelhos do Grand Canyon, um geólogo descobre uma peça a qual caiu de um penhasco próximo. Desvencilhada de uma antiga formação rochosa, a grande estrutura abriga um extraordinário segredo que remete a milhões de anos atrás. Intrigado com o que viu, o geólogo tira uma foto e, ao fazer isso, ele dá início a uma cadeia de eventos que, sem dúvida, mudará o que sabemos sobre a pré-história no Arizona.

Essa espetacular história começou quando um penhasco do cânion ao longo da trilha Bright Angel desmoronou, fazendo com que uma pedra despencasse na parte debaixo. Ainda que a rocha escondesse algo especial, de início ela não obteve a atenção dos turistas e praticantes de trilha que passavam por lá. Porém, um dia, alguém com o conhecimento certo finalmente apareceu.

Essa pessoa era Allan Krill. Ao observar a rocha, o geólogo começou a suspeitar que ele estava diante de um importante achado. Krill estava certo. Havia algo surpreendente conservado nessa pedra: um vestígio de antes mesmo dos dinossauros caminharem sobre a Terra. Após quatro anos, o amigo do geólogo, Stephen Rowland, publicaria um artigo expondo a extraordinária verdade sobre essa pequena parte do Grand Canyon.

A descoberta de Krill foi reconhecida como um espécime antigo e único o qual ilumina um passado distante. No entanto, se as rochas ao redor da trilha Bright Angel não tivessem desabado – e caso um geólogo não passasse por ali ao acaso – esse segredo poderia muito bem ter permanecido oculto às gerações futuras.

De todo modo, é evidente que, como um dos marcos naturais mais famosos do mundo, o Grand Canyon vem contando histórias desde muito antes do nascimento de Krill e Rowland. A história desse cânion teve início há quase dois bilhões de anos, em uma época que o mundo era muito diferente de como é hoje. De forma lenta, os supercontinentes foram se modificando e a paisagem do que é agora o Arizona começou a emergir.

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Na região que viria a ser o atual Grand Canyon, forças compressivas e temperaturas altíssimas provocaram a formação de rochas metamórficas e ígneas. Mais tarde, camadas sedimentares foram estabelecidas – cada uma delas resgatando um momento da história regional, podendo ainda serem interpretadas pelos atuais geólogos. Contudo, foi somente no final do período Cretáceo – aproximadamente entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás – que o desfiladeiro realmente começou a tomar forma.

Iniciando por volta de 70 milhões de anos atrás e ao longo dos 40 milhões de anos que se seguiram, a atividade das placas tectônicas da região originou a formação do Planalto do Colorado. Elevada a aproximadamente 3 mil metros acima do nível do mar, esta área alta e plana acabaria por cobrir cerca de 330 mil quilômetros quadrados. Inclusive, essa enorme extensão abrange as fronteiras do Arizona, Colorado, Utah e Novo México.

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À medida que o Planalto do Colorado surgia, a drenagem na região passava por uma mudança drástica. O derretimento do gelo e a água da chuva cuja retenção ocorria em partes do conjunto de montanhas, denominado de Montanhas Rochosas, começaram a fluir sobretudo em direção ao oeste. E, com o tempo, o aumento do volume de líquido transformou o curso de água, o qual conhecemos hoje como o rio Colorado, em uma força poderosa e devastadora.

Então, ao longo de milhões de anos, o rio Colorado atravessou o planalto, carregando os detritos provenientes do desgaste das rochas submersas. De maneira gradual, também esculpiu um caminho através das camadas sedimentares, metamórficas e ígneas. As margens expostas também sofreram erosão, criando um cânion com intenso fluxo de água.

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Com o passar do tempo, o grandioso rio Colorado continuou a transpor seu caminho através do planalto, expandindo cada vez mais o desfiladeiro. Aproximadamente dois milhões de anos atrás, aconteceu uma série de eras glaciais. Conforme o clima se tornava mais úmido, a corrente do rio ficava ainda mais forte, possibilitando que o curso de água gerasse sulcos profundos nas antigas rochas.

Nos dias de hoje, o cânion esculpido pelo rio Colorado é conhecido como Grand Canyon e considerado uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo. De acordo com os geólogos, a ravina alcançou algo próximo à profundidade atual há cerca de 1,2 milhão de anos, quando as inundações e o derretimento da última era glacial por fim abrandaram. Mais recentemente, o cânion viria a ser também o lugar onde Krill fez sua notável descoberta.

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Todavia, o Grand Canyon está longe de ser um fenômeno completo. O rio Colorado prossegue com o processo erosivo no planalto ainda hoje, desgastando gradativamente camada após camada das rochas. Isso significa que, no futuro, essa maravilha natural pode ser ainda mais profunda e vasta do que é agora – embora ninguém possa dizer com exatidão o quanto ela pode mudar.

Levando em consideração a atividade geológica na área, você pode se surpreender ao saber que pessoas estão na região já há muito tempo. Por volta do mesmo período em que ocorreu a última era glacial, a qual auxiliou o rio Colorado a esculpir as partes mais profundas do desfiladeiro, os humanos chegaram pela primeira vez a essa parte do Arizona. Assim, após mais de um milhão de anos, em meados do século 16, os europeus espreitaram o local.

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Posteriormente, o presidente Benjamin Harris designou o cânion como reserva florestal – o primeiro passo dado para preservar esse patrimônio único. Em 1919 e de modo oficial, foi também intitulado como Parque Nacional. Nos dias de hoje, essa profunda ravina recebe ao ano cerca de seis milhões de pessoas – todas atraídas ao local pela dramática beleza, lindas paisagens e desafiadoras trilhas.

Entretanto, os turistas não são os únicos que se reúnem no Arizona com o propósito de ver por si mesmos o Grand Canyon. Desde 1858, a região tem sido visitada em diversas ocasiões por cientistas interessados em observar a fascinante geologia do cânion – estando Krill entre eles. Graças a esses especialistas, possuímos muitas informações sobre o desfiladeiro. Por exemplo, foi dito que suas paredes dispõem de nada menos que 13 tipos distintos de rochas.

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No momento presente, algumas dessas rochas formam as partes mais famosas do Grand Canyon, sendo o centro das atenções em inúmeras fotos turísticas durante todo o ano. Ao longo do extremo norte, por exemplo, há o afloramento, conhecido como Templo Isis, que se eleva a aproximadamente 2130 metros acima do nível do mar. Também há o famoso trecho chamado Granite Gorge, o qual nasce no rio Colorado e flui até a uma abertura natural glaciar.

Embora o fluxo de visitantes seja praticamente contínuo, o Grand Canyon ainda preserva muitos segredos. Em 2014, geólogos da Universidade do Novo México publicaram um artigo que contestava antigas crenças sobre a formação da ravina. Segundo tal estudo, uma teoria amplamente aceita pode ter estado errada esse tempo todo.

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Na revista científica Nature Geoscience, o geólogo Karl Karlstrom argumentou que o famoso marco possuía, na verdade, muito menos do que 70 milhões de anos. “Segmentos diferentes do cânion têm histórias e idades distintas”, escreveu ele, “mas eles se uniram para formar o Grand Canyon com o rio Colorado apenas por volta de cinco a seis milhões de anos atrás”.

As descobertas de Karlstrom manifestaram-se controversas e nem todos concordaram com essa nova análise do Grand Canyon. Inclusive, o tempo para de fato confirmar isso pode estar se esgotando. Em uma entrevista de 2019 à estação de rádio WBUR de Boston, o geólogo Wayne Ranney explicou: “O rio Colorado está constantemente destruindo as paredes do cânion e removendo os indícios de sua história mais antiga”.

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Felizmente, nem tudo são más notícias. Conforme as rochas do Grand Canyon continuam a sofrer erosão, outros segredos estão sendo revelados pela primeira vez em milhões de anos – segredos como aquele que Krill conseguiu descobrir. Entre esses achados, aliás, estão fósseis antigos das criaturas primitivas as quais caminharam por essa paisagem em um passado distante.

Em maio de 2019, por exemplo, o Serviço Nacional de Parques divulgou que um conjunto de pegadas fossilizadas tinha sido descoberto em uma parte afastada do cânion. Aparentemente, esses rastros pertenceram a um tipo de tetrápode ou a alguma outra criatura com quatro patas que viveu na região há cerca de 280 milhões de anos. Esses animais são tão antigos que existiram antes mesmo dos dinossauros.

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Após estudar tais pegadas, os paleontólogos notaram que se tratava de um tipo de marcação conhecida como Ichniotherium. Geralmente é atribuída a um clado de tetrápodes intitulados de diadectomorfos, os quais nunca foram vistos antes em um ambiente desértico. Assim, essa descoberta lançou uma nova e emocionante luz sobre as criaturas que outrora andavam pelo Grand Canyon.

“Estes novos vestígios de fósseis descobertos no Parque Nacional do Grand Canyon fornecem importantes informações sobre a paleobiologia dos diadectomorfos”, explicou o Dr. Heitor Francischini, um paleontólogo brasileiro, em um comunicado de imprensa de 2019 do Serviço Nacional de Parques. “Não se esperava que os diadectomorfos vivessem em um ambiente árido, porque supostamente não tinham as adaptações clássicas para serem completamente independentes da água”.

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Nesse mesmo ano, o Serviço Nacional de Parques também anunciou que compilaria seu maior banco de dados paleontológicos de todos os tempos. Esse detalhado catálogo da história fóssil do Grand Canyon destina-se a auxiliar tanto especialistas quanto os próprios cidadãos para que desenvolvam uma melhor compreensão da região.

Embora acadêmicos e amadores tenham passado décadas vasculhando o Grand Canyon a procura de fósseis, o local ainda possui algumas surpresas. Inclusive, isso nos remete ao Krill. Em 2016, o geólogo norueguês levou um grupo de estudantes para caminhar ao longo da trilha Bright Angel. Ao decidir fazer esse trajeto, provavelmente Krill não esperava que fosse mudar o que sabemos sobre a vida pré-histórica da região.

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A trilha Bright Angel é impressionante por si só. Começando ao extremo sul do desfiladeiro, no Grand Canyon Village, o percurso estende-se por aproximadamente 12 quilômetros, caindo mais de 1.219 metros até o rio Colorado. Ao longo do caminho, a trilha também passa por várias formações rochosas bem conhecidas, como o Templo Brahma e a Pirâmide de Quéops. No entanto, foi algo muito menos extravagante que acabou chamando a atenção de Krill.

Enquanto caminhava, Krill avistou uma pedra repousada na trilha. Ao olhar a rocha mais de perto, percebeu que sua superfície estava marcada por uma série de padrões estranhos. A origem da pedra era evidente. Certamente vinha do desmoronamento de um penhasco, sendo este conhecido como Formação Manakacha.

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Parte da camada da rocha provém do grupo Supai, logo, a Formação de Manakacha é um penhasco de lamito e calcário o qual atravessa o Grand Canyon. Por milhões de anos, fez parte do complexo geológico que constitui o Planalto do Colorado. Todavia, uma parte da Formação de Manakacha havia desmoronado e se direcionado ao caminho de Krill.

Intrigado pelas marcas que viu, Krill tirou uma foto e a enviou para Rowland, um paleontólogo da Universidade de Nevada. Analisando a imagem, o pesquisador norte-americano confirmou, posteriormente, o que seu colega havia suspeitado: os padrões eram pegadas fossilizadas de muito tempo atrás. Assim, após dois anos, a descoberta foi anunciada na reunião anual da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados.

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Contudo, levaria mais alguns anos até que os verdadeiros detalhes da descoberta revolucionária de Krill fossem revelados. Em 19 de agosto de 2020, Rowland e seus colegas Zachary Jensen e Mario Caputo publicaram um artigo na revista científica PLOS ONE. Nesse trabalho, o trio tratou acerca das pegadas fossilizadas do Grand Canyon – incluindo o achado da trilha Bright Angel.

Ao investigar estudos anteriores sobre a Formação de Manakacha e mapas geológicos da região, os pesquisadores conseguiram identificar a idade das pegadas com surpreendente precisão. Ao final, Krill tinha razão em parar e olhar de perto essa rocha que havia encontrado por acaso ao longo da trilha.

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Após analisar os rastros, Rowland concluiu que possuíam cerca de 313 milhões de anos, datando do Período Carbonífero. Isso fez com que eles quebrassem recordes, uma vez que essas são as mais antigas pegadas de vertebrados fossilizados já encontradas no Grand Canyon.

Por incrível que pareça, isso não é tudo. Embora os especialistas não saibam com exatidão que tipo de organismo deixou essas pegadas, eles estão confiantes de que se tratava de algum tipo de réptil. Rowland explicou em um comunicado do Serviço Nacional de Parques, no mês de agosto de 2020, que isso faz com que tais rastros sejam ainda mais especiais. “São as pegadas mais antigas da Terra de animais que botam ovos com casca e as primeiras evidências de animais vertebrados caminhando em dunas de areia”, disse ele.

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Conforme relatos, os rastros foram formados quando a terra, que hoje conhecemos como Arizona, era uma planície localizada próxima à linha do Equador. Assim, Rowland acredita que, em algum momento, duas criaturas dos tempos pré-históricos andaram de modo diagonal pelo solo, o qual viria a ser parte da Formação Manakacha, e deixaram suas pegadas para trás.

Nem todos partem do princípio que duas criaturas foram responsáveis por deixar tais rastros históricos. Há especulações, por exemplo, sobre as pegadas terem sido feitas por um mesmo vertebrado, o qual tenha atravessado a área em momentos distintos. Qualquer que seja a verdade, os dois conjuntos de pegadas correspondem a trajetos conduzidos em velocidades divergentes.

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Também foi observado que pelo menos uma das criaturas se moveu utilizando o que é conhecido como marcha de sequência lateral. Em uma entrevista de agosto de 2020 ao jornal The Arizona Republic, Rowland descreveu essa marcha como o movimento da “pata posterior esquerda, depois a anterior esquerda, então a posterior direita e por fim a anterior direita”.

“Espécies vivas de tetrápodes – cães e gatos, por exemplo – costumam usar uma marcha de sequência lateral quando andam devagar”, explicou Rowland no comunicado. “Os vestígios da trilha Bright Angel comprovam a utilização dessa marcha no início da história dos animais vertebrados. Anteriormente, não tínhamos nenhuma informação acerca disso”.

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Mas como é que as pegadas foram capazes de perdurar em condições tão incríveis por tanto tempo? Bem, provavelmente foram preservadas por serem cobertas com água e areia. Com o passar do tempo, então, a marca permaneceu na rocha. Durante milhões de anos, esse extraordinário tesouro ficou oculto dentro da Formação Manakacha, somente aguardando para revelar seus segredos ao mundo.

De todo modo, parece que as conclusões de Rowland ainda não são conclusivas e podem gerar controvérsias dentro do universo paleontológico. Falando à Associated Press em agosto de 2020, Mark Nebel, do Grand Canyon, esclareceu: “Há muitas discordâncias na comunidade científica sobre a interpretação de rastros [e] a interpretação da idade das rochas – sobretudo em relação a interpretação de que tipo de animal deixou essas pegadas”.

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Ao menos por enquanto, a rocha da trilha Bright Angel permanece sendo um objeto de fascínio aos paleontólogos e geólogos que visitam o Grand Canyon. “Muita gente passa e nem percebe a peça”, continuou Nebel. “Nós, cientistas, temos os olhos treinados. Agora que sabem que há algo lá, isso vai chamar ainda mais a atenção”. Portanto, a grandiosa descoberta de Krill provavelmente se tornará mais uma atração para um dos mais famosos pontos turísticos da América.

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